Aconteceu
mais uma vez em nossa cidade a pior tragédia que pode acontecer a um ser humano: perder um
filho. O primeiro gesto tem que ser de solidariedade, de introspecção, de
reflexão sobre nossas vidas que valem tudo e nada valem, sobre o mundo que
desmorona em segundos.
Mas a tragédia pessoal é também a lembrança de uma
tragédia maior e diária, dos riscos insuspeitos que corremos todos os dias em
nossas cidades violentas e mergulhadas na indiferença, na corrupção e na
hipocrisia.
Ou alguém ficou surpreso com mais uma estória de
corrupção policial, quando um soldado PM ganha menos de mil reais para
enfrentar a morte todos os dias ? E quando o hábito mais difundido na sociedade
brasileira é o suborno, que nos níveis inferiores se chama cervejinha, e na
cobertura se chama "comissão" ?
Não é possível que andar de skate na rua
escandalize tanta gente, quando vivemos numa cidade em que tudo é permitido -
estacionar em qualquer lugar, jogar no bicho, comprar em camelô, jogar lixo na
praia e na rua, urinar onde der vontade - e onde as modestas tentativas de
impor um pouco de civilidade (o choque de ordem e a lei seca) são
ridicularizadas pela maior parte da população e até pela mídia !
Vivemos com um Código Penal e um Código de
Processo Penal do início do século passado. Só pobres coitados ficam presos - e
mesmo assim, nunca por mais de 30 anos (não importa a barbaridade que tenham
cometido), pois nossos políticos têm mais o que fazer.
A única reação digna à essa tragédia é arregaçar
as mangas e trabalhar para mudar suas causas. Ou descobriremos, cedo ou tarde,
que o skate, nesse caso, é quase uma metáfora das nossas vidas. Estamos, todos,
andando de skate no meio do tráfego, todos os dias.
Roberto Motta





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